E Foi Assim que Tudo Terminou

No dia seguinte, Vitor e seu avô se reuniram novamente, após o período de descanso necessário. Eles ainda teriam muito a conversar sobre os eventos que praticamente culminaram com a extinção da raça humana.

– Nonno, pelo que já pude perceber não foi um único fato que acabou gerando esse momento crítico para a humanidade, mas por outro lado, também vejo que eles já estavam sofrendo há muito tempo e nem por isso estavam tentando mudar. Quais foram os fatores determinantes para que esse pavio fosse aceso? religiosas, sempre foi esperado um grande evento catastrófico que dizimasse a

– Vitor, essa dúvida sempre foi o questionamento de muitos da época, quando o mundo iria acabar, de que forma ele acabaria, mas o que poucos percebiam era que o mundo estava acabando, aos poucos, todos os dias, em todos os cantos do planeta, sem grandes eventos catastróficos, embora, vez ou outra, alguns até acontecessem e davam sinais claros de que alguma coisa precisava ser feita, mas de uma forma geral, todos esses sinais foram ignorados pela grande maioria, em partes, até mesmo pela ajuda da mídia e Governos, que mascaravam os grandes problemas para não gerar tumultos e revoltas, por outro lado, também nada faziam para promover mudanças e, com isso, silenciando e ignorando, contribuíram para a derrocada da espécie humana.

– Podemos dizer, se fosse possível resumir tudo o que aconteceu em algumas palavras, que a humanidade entrou em colapso total por não dar importância aos seus recursos naturais, pela sua ganância e arrogância e,  também, pela intolerância religiosa, fatores esses que mais afetaram e pesaram no tão temido “fim do mundo”, que não foi propriamente um fim, mas uma situação de sofrimento extremo, que não marcou o fim do mundo, mas o fim de um comportamento milenar equivocado.

– Para mantermos uma linha de raciocínio, vamos abordar cada um dos temas separadamente, assim como já o fizemos com outros assuntos anteriormente e vamos começar pela escassez dos recursos naturais. O homem, desde os tempos mais remotos, nunca se preocupou com a preservação do seu planeta, num antagonismo muito irracional e fazendo uma comparação bem simplista, seria como não cuidar da casa onde você mora, não se preocupar com a limpeza, com as ervas daninhas que vão chegando, com os insetos e outros animais peçonhentos, não se preocupar com o lixo, deixando-o todo amontoado dentro de casa, fétido e podre, nunca lavar suas roupas e nem tomar banho. Claro que isso seria rebatido e as pessoas que o fizessem seriam classificadas como loucas, no entanto, isso era feito com o planeta todo e ninguém se preocupava. Seria o caso de uma loucura coletiva, então?

– Nonno, o homem na sua ganância e sede de poder, sempre pensando somente nos lucros, não se preocupou em criar empresas sustentáveis, carros ecológicos, produtos sem agrotóxicos, entre tantas outras coisas que agrediram absurdamente o planeta. Depois de um longo tempo eles começaram a se preocupar um pouco com isso, mas já era tarde, o maior estrago já estava feito e, na natureza, não existem saltos ou respostas imediatas, portanto, um longo período de tempo seria necessário para que a Terra se recuperasse de todo o estrago causado por gerações e mais gerações sem consciência.

– Foi isso mesmo, Vitor. A natureza sempre deu sinais claros de que não aguentava mais, mas seus avisos eram ignorados, sempre por interesses maiores nos recursos financeiros, países altamente industrializados não admitiam a hipótese de reduzir a utilização de recursos, alegavam que isso traria sérios riscos à sua economia, assim como, países em processo de desenvolvimento, se julgavam no direito de também poluir um pouco mais, pois precisavam crescer e tinham direitos iguais aos demais. O que ninguém se preocupou ou pensou era que não era uma mera questão de direitos, nem tão pouco de crises financeiras, a questão era muito maior, era a própria sobrevivência da espécie humana que estava em jogo. O estrago na camada de ozônio era tamanho que, década após década, a temperatura do planeta foi aumentando em níveis alarmantes e nenhuma atitude foi tomada. As geleiras começaram a derreter e, com isso, toda a vida marinha foi afetada, ecossistemas foram aniquilados e, é claro, isso não passaria impune na natureza e, aos poucos, o homem começou a sentir o reflexo do seu disparate constante.

– As temperaturas começaram a subir muito, em todos os países, principalmente nos tropicais. Em dias de verão, que praticamente duravam o ano todo, a temperatura média era de 50º C, fato que começou a provocar inúmeras mortes, já que o corpo humano não suporta tamanha temperatura. Nos seus dias mais quentes foram registradas temperaturas na casa dos 65ºC, tornando a vida no planeta insustentável. A população mais carente foi a que primeiro foi dizimada e mais sofreu, por não possuírem recursos para adquirir bens que pudessem minimizar esse calor insuportável e por não terem casas preparadas para tal, acabavam morrendo muito rapidamente. Em questão de alguns anos, talvez cerca de dez a quinze anos, só esse fator fez com que a população mundial diminuísse em torno de 50%. As pessoas que tinham mais recursos achavam que escapariam, afinal, tinham dinheiro!

– Nonno, não consigo entender como as pessoas podiam ser tão ignorantes e arrogantes, será que não percebiam que o dinheiro não poderia comprar tudo, muito menos a vida delas?

– Não, Vitor, muitos não percebiam, motivo pelo qual falei que a arrogância e a ignorância também foram fatores determinantes para o aniquilamento da raça humana. Eles tinham dinheiro, compravam sofisticados aparelhos de refrigeração, mas precisam de energia elétrica para fazer com que eles funcionassem, bem esse que também começou a ficar cada vez mais escasso, pois dependia de outro recurso natural, também totalmente ignorado: a água. Governos de todos os países nunca levaram muito a sério a escassez de água no mundo, nunca se preocuparam tanto quanto deveriam com a criação de meios alternativos para a geração de energia, deixaram de investir nessa mudança e julgavam que a água nunca faltaria, mas não era bem essa a verdade e, devido aos constantes abusos do homem contra a natureza, todo o ciclo natural se alterou e as chuvas passaram a ser cada vez mais raras.

– Isso é natural, nonno, uma vez que, com todo o desmatamento que havia, com toda a poluição e destruição dos rios, era questão de tempo até que esse ciclo natural fosse quebrado. O homem não se preocupava em devastar, se preocupava somente com os lucros da exploração madeireira, se preocupava com as áreas que ele, no alto da sua arrogância, comprava, mas esquecia de que tudo isso era do planeta e ele tomaria de volta quando quisesse. E assim o fez, aos poucos, com chuvas raras e temperaturas altíssimas, as plantações foram acabando e o homem experimentou a maior crise de comida da história